Ciência Cidadã forma jovens cientistas da pesca em Rondônia

Projeto de ciência cidadã em Rondônia capacita alunos ribeirinhos a monitorar pesca local, unindo saber tradicional e método científico ao manejo sustentável.

Ciência Cidadã forma jovens cientistas da pesca em Rondônia

A bacia amazônica, o maior sistema de água doce do mundo, tem sua compreensão ampliada quando a pesquisa é realizada por quem vive às suas margens. Em março, a equipe técnica do projeto Ciência Cidadã como ferramenta de pesquisa em escolas ribeirinhas retomou as viagens pelas águas de Rondônia para iniciar um novo ciclo de atividades.

A iniciativa busca estudantes voluntários de escolas públicas ribeirinhas e os capacita para atuarem como cientistas da pesca, monitorando a atividade pesqueira junto a pescadores, especialmente do núcleo familiar. Os alunos coletam e analisam dados sobre peixes e pesca em suas comunidades. Neste ano o projeto foi ampliado para incluir duas novas unidades de ensino na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã.

O projeto integra o Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, promovido pela Aliança Águas Amazônicas. Em Rondônia, a execução é feita pela Ecoporé em parceria com o Laboratório de Ictiologia e Pesca (LIP/UNIR), com apoio da Wildlife Conservation Society (WCS) e da Fundação Moore.

A metodologia insere a ciência na rotina comunitária: são selecionados estudantes que têm pescadores em seu círculo social — pais, avós, tios, vizinhos ou amigos — e os treinam para monitorar essas atividades. Por meio de entrevistas e registros de campo, o jovem transforma o peixe que chega à mesa ou ao comércio local em dados científicos, unindo saber tradicional e metodologia científica.

Para alcançar as comunidades, a equipe parte de Porto Velho e enfrenta logística complexa, com transporte diversificado e trajetos que alternam estrada e vias fluviais.

A escola de Cujubim Grande fica a 33 quilômetros da zona urbana de Porto Velho; Jaci-Paraná está a 80 quilômetros. Embora o acesso a ambas seja terrestre, as duas comunidades estão instaladas às margens dos rios e diretamente conectadas à dinâmica hídrica que o projeto monitora.

O deslocamento até São Carlos, a cerca de 70 quilômetros da capital, exige travessia fluvial no rio Madeira. O acesso às escolas na Resex do Lago do Cuniã, a aproximadamente 100 quilômetros, envolve cruzar o Madeira até São Carlos, percorrer 13 quilômetros por estrada de terra — com condição reduzida na estação chuvosa — e, por fim, atravessar o lago em pequenas embarcações.

O percurso para o distrito de Nazaré varia entre 100 e 150 quilômetros: a equipe vai de carro até a foz do rio Jamari e segue por cerca de uma hora em barco tipo voadeira até o destino. Em todos esses trajetos, as vias fluviais predominam e conectam as comunidades à bacia amazônica.

Um dos desafios do novo ciclo é reverter a evasão observada no ano anterior e consolidar a permanência dos jovens como pesquisadores ativos. Em 2026, a estratégia foca no fortalecimento institucional: maior envolvimento das escolas, aproximação com gestores e professores e integração mais orgânica da iniciação científica e da pauta da pesca na rotina escolar.

A continuidade do aluno no projeto depende também de uma mudança de perspectiva sobre o lugar onde vive e da valorização da pesca como elemento central da subsistência local. A analista ambiental Dayana Catâneo destaca que o engajamento começa pelo reconhecimento geográfico e cultural do território e pela compreensão do privilégio de ter o rio Madeira — o segundo maior rio da bacia amazônica, com a maior ictiofauna já descrita — correndo no quintal de casa.

Ao mapear a riqueza de espécies locais e entender a importância da pesca para a subsistência, o estudante ressignifica seu entorno e passa a valorizar o conhecimento tradicional da própria comunidade, aproximando a ciência da realidade cotidiana, informa a analista.

O engajamento dos estudantes conta com bolsas do programa "Jovem Cientista da Pesca Artesanal", do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e do CNPq. Recentemente, a jovem cientista Fernanda Oliveira representou os bolsistas de Rondônia no lançamento do novo edital do programa em Brasília. Moradora da comunidade de Terra Caída, ela utiliza transporte fluvial diariamente para ir à escola em São Carlos.

"Eu creio que, nessa nova etapa, nós podemos criar boas expectativas pelo fato de ter mais alunos interessados e querendo participar, e com isso ter um aumento na coleta de dados", projeta Fernanda sobre a continuidade e expansão do projeto.

A aplicação do método científico na rotina alimentar transforma a percepção dos jovens, que passam a se ver como investigadores do próprio quintal. O biólogo da equipe técnica, Felipe Lins, acompanha alunos que ingressaram ainda no início do ensino médio e observa mudanças no protagonismo e no orgulho por seu modo de vida.

Lins relata mudanças no vocabulário e na atenção das famílias: estudantes antes distantes da atividade pesqueira começam a questionar variações no consumo e a identificar espécies que antes não reparavam. Em um caso recente, um aluno enviou vídeo em que media um peixe com rigor metodológico enquanto conversava com a mãe sobre a produção de farinha prevista para o mês seguinte.

A produção de conhecimento é, segundo a equipe, horizontal: Jamile Ferreira, graduanda em Biologia da UNIR e integrante da equipe técnica, afirma que também tem aprendido com os resultados coletados pelos alunos e destaca a gratificação de ver o empenho deles gerar resultados úteis para a pesquisa.

Fonte da imagem: Joshua Lacerda/Acervo Ecoporé

Fonte das informações: Assessoria