Aos 58 anos Leda reescreve a vida após casamento precoce e abuso
Aos 15 anos Leda sonhava em ser professora; casou-se jovem, perdeu oportunidades, superou abuso, retomou estudos e hoje incentiva mulheres à independência.
Leda Maria Monteiro dos Santos Alvarado, 58 anos, relatou em entrevista concedida em outubro de 2025 que seu maior sonho na juventude era cursar faculdade para se tornar professora.
Ela disse que, aos 15 anos, admirava quem ensinava e via na educação um caminho para transformar vidas, mas que a família, com origem rural e pouca escolaridade, não valorizou os estudos. Segundo Leda, suas mães e irmãs foram criadas para assumir o papel de dona de casa, o que fechou as portas para a formação acadêmica na juventude.
Leda casou-se aos 18 anos e teve dois filhos, Lucas e Leidiane. No início do casamento dedicou-se exclusivamente ao lar, mas, após o fim do relacionamento, precisou trabalhar para sustentar a família.
No final dos 20 e início dos 30 anos, ela viveu um relacionamento abusivo que a levou à depressão e à internação. Leda conta que só começou a reagir depois de um alerta do médico: “Você realmente vai sofrer por alguém que não a merece? Você tem filhos, e eles precisam de você.” A partir dessa intervenção, ela retomou os estudos e procurou reconstruir a própria vida.
Ao refletir sobre arrependimentos, Leda afirmou que faria escolhas diferentes: teria buscado a formação e não se deixaria sofrer por um relacionamento. “Naquela época, tudo era fácil — até os concursos eram fáceis de passar. Se eu tivesse buscado, estaria mais bem-sucedida hoje. Queria ter aberto os olhos antes e ter sido uma mãe mais presente, sabe? Porque, por conta do trabalho, fiquei mais distante”, disse.
Ela relatou também que, com o tempo, deixou de se preocupar tanto com o trabalho e passou a valorizar momentos de lazer e convivência. Só aos 50 anos decidiu aproveitar a vida, criar ocasiões especiais e se divertir. Como conselho às mulheres de hoje, Leda enfatizou: estudem, busquem independência e aproveitem as oportunidades que hoje são mais acessíveis.
O relato de Leda evidencia as dificuldades enfrentadas por muitas mulheres de sua geração, cuja trajetória foi marcada por expectativas familiares e limitações sociais. Apesar das adversidades, ela reconstruiu-se, concluiu estudos e conseguiu criar memórias positivas ao longo da vida.
A crônica foi elaborada a partir de relatos e registros fotográficos de Leda Maria Monteiro dos Santos Alvarado. Leda trabalha como cozinheira escolar. A entrevista foi realizada por Rebeca Monteiro, aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), como parte do projeto de extensão Retrato de Mulher — Relatos de histórias de vida de mulheres a partir de registros fotográficos (2025). As fotografias mencionadas pertencem ao acervo pessoal da entrevistada.