Caminhoneiros no Brasil enfrentam estresse e adoecimento devido à rotina exaustiva
Caminhoneiros no Brasil enfrentam longas jornadas, estresse e solidão, impactando a saúde mental. Pesquisa revela que 27% usam drogas para dirigir.
No Brasil, a rotina dos caminhoneiros é marcada por jornadas exaustivas, pressão por prazos e longos períodos longe de casa, resultando, muitas vezes, em problemas de saúde. Emerson André, conhecido como Facebook, atua como caminhoneiro autônomo há 16 anos e expressa que o estresse e a solidão impactam diretamente a saúde mental da categoria.
Daniel Francisco de Lima, também conhecido como Del Caminhoneiro, tem 27 anos de experiência nas estradas e, embora tenha aprendido a lidar com a tensão do trabalho, admite que a pressão é constante. O procurador do Trabalho Paulo Douglas de Moraes destaca que a saúde mental dos motoristas é um problema estrutural, resultando em um fenômeno denominado ‘apagão de motorista’. A média de idade dos caminhoneiros é de 46 anos, refletindo uma escassez de novos profissionais dispostos a entrar na profissão.
Moraes explica que a situação se agrava devido à dependência do Brasil do transporte rodoviário, que impacta diretamente no Produto Interno Bruto (PIB). A falta de mão de obra é associada a uma perspectiva negativa da profissão, que desencoraja os jovens a se tornarem caminhoneiros. Apesar da importância econômica, questões como a redução da jornada de trabalho não têm avançado por conta da combinação de interesses políticos e econômicos.
Uma pesquisa do Ministério Público do Trabalho (MPT) aponta que 50,49% dos caminhoneiros recebem por comissão e 43,7% têm carga horária indefinida. Emerson André confirma que 70% dos motoristas trabalham comissionados, o que gera incerteza financeira e impacta em sua saúde mental.
Cerca de 56% dos caminhoneiros trabalham entre nove e 16 horas por dia, com um quarto da categoria ultrapassando 13 horas. A legislação estabelece que devem ter 11 horas de descanso diário, pausas regulares e um repouso semanal de 24 horas, mas muitos não conseguem respeitar essas diretrizes.
Adicionalmente, um estudo recente revela que aproximadamente 27% dos motoristas utilizam substâncias para se manterem acordados e dirigirem por longos períodos. Jefferson Almeida, da Polícia Rodoviária Federal, observa que o uso de drogas, incluindo substâncias inibidoras do sono e outras mais pesadas, é recorrente entre os caminhoneiros.
Alan Medeiros, da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, defende a criação de mais pontos de descanso ao longo das rodovias. Muitos motoristas enfrentam insegurança ao dormirem em seus caminhões, onde estão suscetíveis a roubo de cargas ou sequestros.
A pesquisa de Michelle Engers Taube, doutora em psicologia, indica que motoristas com jornadas acima de 12 horas têm três vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais, como ansiedade e depressão, em comparação com aqueles que dirigem menos. Um em cada cinco caminhoneiros apresenta algum nível de vulnerabilidade emocional, segundo um levantamento da plataforma Moodar.
O psiquiatra Alcides Trentin Junior enfatiza a necessidade de avaliações periódicas para caminhoneiros, visto que acidentes estão frequentemente ligados a problemas de saúde mental. Ele ressalta que a responsabilidade do Estado é essencial para garantir estradas seguras e políticas públicas que promovam um ambiente de trabalho saudável.
A saúde e segurança no trabalho dos caminhoneiros são abordadas nas diretrizes da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho e Emprego, que exige que as empresas garantam um ambiente psicologicamente saudável. As atualizações recentes da norma obrigam as empresas a identificarem e lidarem com riscos psicossociais no trabalho.
Barbara Lippi, neurocientista e fundadora da Moodar, ressalta que é fundamental focar não apenas na saúde física, mas também em fatores que afetam o bem-estar psicológico dos trabalhadores. O procurador Paulo Douglas de Moraes acredita que a crescente atenção à saúde mental no transporte rodoviário é um passo importante para melhorar as condições de trabalho e segurança, visto que a fadiga pode ser um fator relevante em acidentes.
Por fim, Alan Medeiros aponta que muitos caminhoneiros relutam em expor problemas emocionais, priorizando queixas físicas. O psiquiatra Alcides Trentin Junior adverte que a sociedade frequentemente ignora os impactos de dirigir longas horas, chamando a profissão de caminhoneiro de penosa devido ao estresse global que essa jornada causa.