Governo de Rondônia denunciado por descumprir Lei Lucas sobre primeiros socorros
O Ministério Público de Rondônia investiga o governo estadual por descumprimento da Lei Lucas, que exige capacitação em primeiros socorros nas escolas.
Uma representação formal foi protocolada esta semana junto ao Ministério Público do Estado de Rondônia, denunciando o Governo do Estado pelo descumprimento sistemático da Lei Federal nº 13.722/2018, conhecida como 'Lei Lucas'. A referida legislação exige que professores e funcionários das escolas de educação básica sejam capacitados anualmente em primeiros socorros e que as unidades escolares estejam preparadas para atender emergências, como engasgos, quedas, convulsões e crises alérgicas.
O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos (Cedeca/RO), organização atuante desde 1992 na proteção dos direitos da infância e juventude, denunciou que há mais de cinco anos o Estado de Rondônia não cumpre essa obrigação legal, expondo cerca de 260 mil estudantes da rede pública, incluindo crianças, adolescentes e jovens com deficiência, a riscos evitáveis.
A representação ressalta que o governo estadual nunca estabeleceu uma política pública universal de formação em primeiros socorros para as escolas e não regulamentou a lei, apesar da exigência do Art. 6º da Lei Lucas. Thais Campos, médica da organização responsável pela denúncia, afirmou que a capacitação em primeiros socorros não é opcional e que cada escola deveria ter pessoal treinado para agir em situações de emergência.
O documento solicita que o Ministério Público inicie um Inquérito Civil para investigar a omissão do Governo do Estado e que exija um plano de capacitação anual para todos os profissionais das escolas estaduais. Caso não haja uma resposta voluntária, a entidade pede que o Ministério Público proponha uma Ação Civil Pública com pedido de tutela de urgência.
Os autores da denúncia afirmam que a questão não é de falta de recursos, mas sim de prioridades. A representação também destaca que, na Lei Orçamentária Anual aprovada para 2025, a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) dispõe de cerca de R$ 2,9 bilhões, e a Secretaria de Estado da Saúde (SESAU) mais de R$ 2,2 bilhões, mas não há previsão orçamentária específica para a implementação da Lei Lucas de forma contínua.
A denúncia também critica a falta de dados consolidados sobre acidentes e emergências nas escolas, interpretando essa ausência como uma evidência de negligência. Segundo a organização, a falta de monitoramento indica que o Estado não está atenta aos riscos, o que pode levar a tragédias, contrariando o objetivo da Lei Lucas, criada para evitar tais incidentes.
A representação também menciona a desigualdade na execução das ações de capacitação, que ocorreram majoritariamente em Porto Velho e de forma pontual, sem uma abordagem sistemática nas áreas rurais, onde o tempo de resposta das equipes de saúde pode ser maior, aumentando o risco para os estudantes.
Em seu pedido final, a entidade requer uma ação imediata do Ministério Público, incluindo a publicação de um decreto regulamentando a Lei Lucas em até 30 dias, a apresentação de um plano de capacitação anual com metas e, se necessário, a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com prazos e obrigações. A organização reafirma que o direito a primeiros socorros é fundamental e está alinhado com a prioridade absoluta da criança e do adolescente, conforme estabelecido na Constituição.
A 'Lei Lucas' foi sancionada após a morte do menino Lucas Begalli Zamora, que não recebeu primeiros socorros adequados após se engasgar durante um passeio escolar. A legislação obriga todas as escolas de educação básica, públicas e privadas, e os estabelecimentos de recreação infantil a oferecer capacitação contínua em primeiros socorros e a possuir kits de emergência, integrados à rede local de atendimento de urgência.