Peixe político: tambaqui entra na mira de interesses que não pescam a verdade

O governo de Rondônia reage à tentativa de classificar o tambaqui como espécie ameaçada, destacando impactos econômicos e a sustentabilidade da produção local.

Peixe político: tambaqui entra na mira de interesses que não pescam a verdade

A tentativa de incluir o tambaqui (Colossoma macropomum) na lista de espécies ameaçadas de extinção tem provocado reações duras do governador de Rondônia, Marcos Rocha. Ele vê na proposta um possível golpe comercial camuflado de conservação ambiental.

Este embate vai além de questões técnicas. Reflete uma disputa maior entre conservacionismo e desenvolvimento regional, proteção ambiental e soberania produtiva, além da dicotomia entre informação científica e interesses de mercado.

Ao contrário das alegações de pesquisadores e grupos ambientais, que apontam para um declínio nos estoques silvestres e riscos aos habitats naturais, o governador argumenta que os dados estão sendo manipulados para prejudicar Rondônia, que é o líder nacional na produção de tambaqui em cativeiro, o que impacta diretamente o mercado interno, as exportações e a imagem do estado.

“Não aceito que transformem o tambaqui de Rondônia em peixe em extinção. Produzimos com qualidade, responsabilidade ambiental e sustentabilidade. Isso é uma tentativa de prejudicar nossa economia e favorecer concorrentes”, afirmou Marcos Rocha em vídeo disseminado nas redes sociais.

A base da possível reclassificação da espécie como 'vulnerável' se fundamenta em uma ficha técnica de pesquisadores vinculados a instituições do Amazonas, mencionando a ausência de exemplares em certas bacias, escassez de juvenis e degradação de várzeas. No entanto, representantes do setor produtivo de Rondônia contestam a validade dessas informações.

Francisco Hidalgo, presidente da ACRIPAR e da Comissão Nacional de Aquicultura da CNA, expressou preocupação com a falta de isenção e com o viés técnico: “A ficha diz que não encontraram tambaqui em um determinado ponto do Amazonas. Agendamos reuniões com o Ibama, o Ministério da Pesca e outros pesquisadores, que já compreenderam que essa não é a realidade. Conseguimos apresentar contrapontos”.

A Acripar realiza atividades de repovoamento, soltando milhões de alevinos na bacia hidrográfica do Jamari, uma ação que, por ser recorrente, não é sempre divulgada. “Fazemos isso porque sabemos que há ribeirinhos que dependem diretamente do tambaqui para sobreviver. Está faltando tambaqui? Obviamente, não está”, acrescentou.

Ele ainda lembrou casos semelhantes, como o do pirarucu, que foi incluído na lista de atenção e atualmente enfrenta dificuldades para exportação, exigindo documentação especial do Ibama e criando burocracias que dificultam o comércio e desestimulam investimentos.

Os dados mais recentes reforçam o argumento em favor de Rondônia: o estado é responsável por 37% da produção nacional de tambaqui em cativeiro, com mais de 56 mil toneladas anuais. Em 2024, as exportações de tambaqui cresceram 809%, gerando R$ 3,5 milhões em divisas, especialmente para o Peru e os Estados Unidos. O produto rondoniense foi também premiado em Boston como “melhor novo produto” em um evento internacional de frutos do mar.

O tambaqui de Rondônia é produzido de forma sustentável, contando com rastreabilidade, certificações sanitárias, e parcerias com a Emater e o Sebrae. O estado ainda conta com programas de repovoamento natural e incentivo à pesca artesanal regulada.

Uma disputa de mercado

Para o governo de Rondônia e os representantes do setor, a tentativa de classificar o tambaqui como espécie ameaçada é considerada não apenas equivocada, mas sim com interesses comerciais por trás. A tilápia, um peixe exótico cultivado em larga escala no Sul e Sudeste, enfrenta forte concorrência do tambaqui tanto no mercado nacional quanto internacional, especialmente em regiões tropicais onde o tambaqui se destaca.

O tambaqui apresenta um melhor aproveitamento de carcaça, um sabor diferenciado, um ciclo de produção eficiente e tem uma resposta superior ao clima da região, o que incomoda aqueles que lucram com a tilápia.

O risco da desinformação global

Um dos pontos mais críticos para o governador é como essa classificação poderá impactar a percepção internacional sobre o produto. Marcos Rocha expressou preocupação de que, se o tambaqui for reconhecido como ameaçado, redes de supermercados internacionais poderão interromper a compra do produto brasileiro, sem distinguir entre o tambaqui silvestre e o cultivado.

“Se isso acontecer, o mercado fechará. Ninguém deseja vender peixe associado a desmatamento, mesmo que criado com responsabilidade. Estão colocando em risco a economia de milhares de famílias com uma narrativa distorcida”, declarou o governador.

O governo de Rondônia e seus produtores sustentam que o tambaqui de cativeiro é um modelo de sucesso econômico e ambiental, e alertam que a proposta de inseri-lo na lista de espécies em extinção é precipitada, parcial e pode ter consequências desastrosas para a economia local. “Faltam dados confiáveis, sobram interesses e o prejuízo pode ser para todos nós”, concluiu Marcos Rocha.