Artesanato indígena em Porto Velho gera renda e preserva cultura
Artesanato indígena em Porto Velho vira fonte de renda e resistência cultural; mulheres lideram produção, mas enfrentam informalidade e falta de apoio.
No complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Porto Velho, artesãs e artesãos indígenas exibem colares, biojoias, cocares e pulseiras feitos com sementes, fibras naturais e miçangas. Entre eles, Márcia Karitiana organiza as peças produzidas na aldeia e diz que o artesanato é a principal fonte de sustento de sua família, além de preservar ancestralidade e identidade cultural.
Em espaços turísticos da capital rondoniense, o artesanato indígena tem se transformado em pequenos negócios ligados à economia criativa. Produtos manuais vendidos em feiras e eventos mantêm tradições vivas e geram renda para famílias indígenas, sobretudo mulheres.
O Sebrae estimou que as atividades da economia criativa representam cerca de 3% do Produto Interno Bruto brasileiro, indicando o potencial do setor para empreendedorismo e desenvolvimento sustentável. Em Rondônia, a força econômica do artesanato ficou evidente na Rondônia Rural Show Internacional de 2026, quando o pavilhão do artesanato movimentou mais de R$ 257 mil em vendas e comercializou cerca de quatro mil peças em seis dias.
Dados do Governo do Estado de Rondônia mostram que mais de 280 artesãos indígenas já foram cadastrados no Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), com mais de 90% desse total formado por mulheres. O programa busca incentivar geração de renda, profissionalização e fortalecimento do empreendedorismo artesanal.
Para o artesão Luan Migueleno, do povo Migueleno, o trabalho artesanal funciona também como resistência cultural. Há cinco anos vendendo adornos, ele afirma que a atividade é hoje a principal fonte de renda da família e que as redes sociais, especialmente o Instagram, ampliaram o alcance das vendas, com encomendas de outros estados.
O coordenador da Feira do Sol, Francisco Leilson, relata que o espaço, instalado no complexo Madeira-Mamoré desde 2011, tornou-se referência para artesãos locais e que a economia solidária ali praticada ajuda a garantir a sobrevivência de muitos produtores. A feira mantém um perfil coletivo em redes sociais para divulgar o trabalho dos participantes.
Apesar do crescimento na procura, muitos artesãos indígenas atuam de forma informal e sem acesso contínuo a capacitações em gestão financeira, precificação e comercialização. Tanto Luan quanto Márcia afirmaram nunca ter participado de cursos de empreendedorismo nem recebido apoio institucional direto para estruturar os negócios.
No âmbito federal, o Governo anunciou em 2026 um pacote de R$ 28 milhões para fortalecer o setor artesanal, reconhecendo desafios históricos como informalidade, dificuldades de acesso ao mercado e falta de políticas públicas contínuas.
Segundo dados do Ministério da Cultura e do IBGE, o setor cultural reúne cerca de 5,9 milhões de trabalhadores e movimenta aproximadamente R$ 387,9 bilhões na economia nacional, com o artesanato desempenhando papel relevante na geração de renda e no fortalecimento de pequenos negócios.
Pesquisas da Universidade Federal de Rondônia (Unir) indicam que o artesanato indígena deixou de ser prática restrita às aldeias e passou a ter papel importante na inserção econômica e social de mulheres indígenas. Os estudos destacam a necessidade de mais políticas públicas, incentivos à comercialização e capacitação técnica para os artesãos.
Mesmo diante da ausência de suporte contínuo, muitos artesãos seguem encontrando no artesanato uma forma de ampliar a renda familiar, fortalecer a identidade cultural e ocupar novos espaços econômicos. Márcia afirma que a produção continua sendo feita dentro da aldeia, com materiais coletados localmente, e revela planos de, no futuro, abrir uma loja própria.
Entre sementes, grafismos ancestrais e peças produzidas manualmente, povos indígenas de Rondônia transformam tradição em sustento, autonomia e permanência cultural, enquanto enfrentam os desafios da informalidade e da busca por reconhecimento institucional.