Endividamento das famílias atinge recorde de 80 por cento
Endividamento atinge 80,2% dos lares; gastos invisíveis e uso do cartão elevam inadimplência. Especialistas recomendam 'faxina financeira' e limites para lazer.
O endividamento das famílias brasileiras continua em alta e já atinge 80,2% dos lares, segundo a medição da Confederação Nacional do Comércio (CNC) registrada em fevereiro — o maior nível da série histórica. Manter o orçamento equilibrado tem se tornado mais difícil, em parte por conta dos chamados “gastos invisíveis”, como assinaturas pouco usadas, taxas em aplicativos e cobranças automáticas, que passam despercebidos e corroem a capacidade de poupar.
O avanço da inadimplência acompanha esse quadro. O Mapa da Inadimplência da Serasa aponta que mais de 81 milhões de brasileiros estão com contas em atraso, concentrados principalmente na população economicamente ativa entre 41 e 60 anos. Entre as origens das dívidas, o cartão de crédito lidera com 26,8% das pendências; seguem-se contas básicas (água, luz e gás) com 21,4%, dívidas com financeiras com 20,3% e serviços com 11,6% — categoria que inclui assinaturas de streaming, telefonia, internet e aplicativos de transporte e alimentação.
O indicador também varia por faixa de renda: o endividamento alcança 82,5% das famílias que recebem até três salários-mínimos, enquanto é de 68,3% entre as que ganham acima de 10 salários-mínimos. O salário-mínimo considerado é de R$ 1.621.
Eber Ostemberg, consultor de Sustentabilidade e Cooperativismo do Sicredi, alerta que o principal risco dos gastos invisíveis está na frequência com que ocorrem. Pequenas despesas repetidas diariamente geram impacto significativo no orçamento e o uso do cartão de crédito torna o gasto menos perceptível, pois só aparece depois na fatura.
Ostemberg destaca que o problema não é o valor isolado, mas a frequência e a falta de controle. Para famílias de menor renda, qualquer gasto recorrente faz diferença nas contas. Ele recomenda identificar e controlar essas despesas, prevendo-as no orçamento: destinar cerca de 10% da renda a pequenos consumos e reservar entre 10% e 15% para poupar ou investir, a fim de manter o equilíbrio financeiro.
Cristiane Amaral, gerente de Educação Financeira e Liderança Cooperativista do Sicredi, reforça a análise comportamental: o cérebro tende a minimizar o impacto de valores baixos (R$ 5, R$ 10 ou R$ 20), criando uma falsa sensação de controle. Um exemplo prático: um gasto diário de R$ 8 equivale a R$ 240 por mês ou R$ 2.880 por ano, montante que poderia ser usado como aporte inicial para uma viagem ou para formar uma reserva de emergência.
A digitalização das finanças reduziu o custo cognitivo de gastar. Pagamentos por aproximação, biometria, cartões salvos e cobranças em aplicativos tornam o ato de consumir mais rápido e emocionalmente neutro, encurtando a decisão do consumidor e favorecendo a repetição de pequenas despesas sem planejamento.
Para recuperar o controle do orçamento, especialistas recomendam a chamada “faxina financeira”: revisar assinaturas, cancelar serviços pouco utilizados, identificar cobranças automáticas e ajustar hábitos que impactam contas básicas como energia e água. A prática consiste em analisar detalhadamente os gastos mensais e eliminar ou reduzir o que for possível.
Instituições financeiras cooperativas, como o Sicredi, disponibilizam exercícios e materiais educativos em seus canais digitais para orientar famílias na realização dessa revisão.
Estratégias comportamentais para evitar compras por impulso:
- Crie um intervalo de decisão: espere alguns minutos antes de finalizar uma compra para separar o desejo imediato da necessidade real.
- Afaste os gatilhos de consumo: desative notificações de ofertas e cancele newsletters que incentivem compras.
- Dificulte o pagamento: remova os dados do cartão salvos em aplicativos para criar uma barreira reflexiva.
- Faça uma lista com prioridades: não faça compras (online ou presenciais) sem um roteiro definido.
- Estabeleça uma verba de lazer: defina um valor mensal para gastos não essenciais e respeite esse limite.