Jovens rurais e indigenas de Rondonia se capacitam em comunicacao

Intercâmbio em Rondônia forma jovens rurais e indígenas em técnicas de comunicação, edição e algoritmos para ampliar vozes locais e defender a Amazônia.

Jovens rurais e indigenas de Rondonia se capacitam em comunicacao

“A gente, como telespectador, não imagina os bastidores.” A observação da comunicadora rural e zootecnista Milene Dias resume a descoberta do grupo que participou de uma imersão sobre produção midiática em Rondônia: a informação exige uma cadeia de produção complexa e intencional.

A atividade fez parte do Intercâmbio de Comunicadores Rurais, integrado ao projeto Escola da Pecuária Sustentável, executado por Ecoporé e Embrapa, com apoio do projeto Transparência e Sustentabilidade em Cadeias Produtivas na Amazônia (ProTS), financiado pelo Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento da Alemanha (BMZ) e implementado pela GIZ em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

O objetivo da iniciativa foi transformar os participantes em multiplicadores de práticas socioambientais nos seus territórios. A imersão reuniu jovens de diferentes perfis: filhos de pecuaristas, agricultores familiares, integrantes do monitoramento pesqueiro e uma delegação da etnia Kaxarari, da Aldeia Pedreira.

Fundamentos teóricos e o papel do gatekeeper

Na sede da Ecoporé, o diretor executivo Paulo Bonavigo, a analista socioambiental Andryni Brasil e o gerente de comunicação Juan Rodrigues apresentaram conceitos e práticas fundamentais. Juan explicou o papel do “gatekeeper” — o filtro jornalístico que decide o que vira notícia — e incentivou os jovens a assumir responsabilidade na seleção e na construção das pautas.

O intercâmbio também abordou estratégias digitais: compreender algoritmos, escolher plataformas e planejar a distribuição do conteúdo são vistas como ferramentas para ampliar o alcance e o impacto das mensagens. Como avaliou o comunicador rural Charles Chagas, entender esses mecanismos facilita levar a comunicação até as pessoas certas e gerar impacto.

Prática nos bastidores da SIC TV

A parte prática começou na sede da SIC TV, onde o grupo acompanhou a rotina do telejornalismo e da Rádio Parecis e participou de uma transmissão ao vivo do programa Câmera Mais. A jornalista e apresentadora Renata Beccária convidou os jovens a aplicar técnicas de oratória, postura e dicção em simulações de entrevista ao vivo.

Na dinâmica, Charles Chagas acabou no papel de repórter e questionou a apresentadora sobre sua preparação diária. Milene Dias também participou e, sem demonstrar nervosismo, destacou a importância de comunicar ações diretamente do campo. Renata elogiou a desenvoltura de Milene e afirmou que ela tem “voz de radialista”.

Para a gerente de jornalismo da emissora, Quétila Ruiz, abrir as portas da redação trouxe renovação de perspectivas: a troca com jovens das comunidades torna o jornalismo mais humano e conectado com a realidade da Amazônia.

Agência e produção audiovisual: identidade, técnica e criatividade

Na produtora Casaquatro, com a gestora de projetos Ana Duzanowski, os participantes conheceram etapas de comunicação visual, construção de marca e fluxo de trabalho de uma agência. O gestor de edição Gualter Tabosa explicou o processo de pós-produção e a necessidade de montar e organizar o conteúdo para formatos curtos.

O filmmaker Paulo Ronaldo falou sobre luz, iluminação e fotografia, e conduziu um ensaio para valorizar a imagem dos jovens, reforçando autoestima e protagonismo. O head de conteúdo Paulo Coelho apontou que não existe fórmula mágica para as redes: o caminho é buscar inspiração, desenvolver uma maneira própria de comunicar e treinar constantemente.

A participante Natália Maisforte disse ter compreendido que reter a atenção do público depende de intencionalidade técnica — iluminação, cortes e edição — e que a construção do conteúdo deve seguir uma sequência lógica que prenda no início, desenvolva uma mensagem objetiva e gere conexão ao final.

Ana Duzanowski ressaltou que, mesmo com equipamentos profissionais, a comunicação genuína se constrói a partir da acessibilidade: registrar o cotidiano com celular ou câmera permite denunciar, mostrar realidades locais e dar autonomia às comunidades.

Comunicação comunitária e exercícios práticos na UNIR

Na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), o grupo dialogou com o grupo de pesquisa e extensão Rádio, Educação e Cidadania (REC). A coordenadora Evelyn Morales diferenciou o jornalismo tradicional da comunicação produzida pelas próprias comunidades, defendendo que a apropriação do processo — da pauta à divulgação — fortalece o ecossistema comunicacional local e combate narrativas colonizadoras.

Como exercício prático, os jovens produziram um podcast a partir de uma pauta real apresentada por Weliton Kaxarari sobre sua aldeia. O trabalho incluiu estruturação de roteiro, definição de perguntas e preparação da gravação, aproximando teoria e prática.

Weliton afirmou que a experiência mudou sua percepção sobre o que há por trás de cada vídeo e destacou que conhecer os bastidores democratiza a expressão e cria oportunidades para quem muitas vezes não tem espaço na mídia convencional.

Ao encerrar a imersão, os microfones abertos no estúdio da universidade simbolizaram uma prática já cotidiana para muitos desses jovens: a troca de saberes. Munidos de novas técnicas e de uma leitura crítica sobre o ecossistema midiático, eles saíram preparados para multiplicar mensagens que promovam a defesa e a conservação da Amazônia a partir das próprias comunidades.

Fonte da imagem: Foto: Assessoria

Fonte das informações: Joshua Lacerda / Assessoria Ecoporé